sexta-feira, 16 de julho de 2010

Elementos morais da civilização (1)

Poucas sociedades se contentam de repousar a sua moral sobre bases económicas e utilitárias. Porque o indivíduo não é por natureza dotado de nenhuma disposição para subordinar os interesses particulares aos do grupo, ou para obedecer a irritantes regulações que não vê apoiadas na força. A fim de dar à moral um invisível "compelidor" e fortalecer os impulsos sociais contra os impulsos individualistas por meio de compreensão abstrata, as sociedades utilizaram-se das religiões. O antigo geógrafo Estrabão expressou ideias muito adiantadas a este respeito, há mil e novecentos anos:


No lidar com uma multidão de mulheres, ou com uma massa promíscua, o filósofo não consegue influenciá-las pela razão, exortando-as à reverência, à piedade, à fé; não; faz-se necessário o medo religioso, e este medo não pode ser criado, sem mitos e maravilhas. Porque trovôes, escudos, tridentes, archotes, cobras, lanças, tirsos - armas dos deuses - são mitos, e isso em toda a mitologia. Mas os fundadores de estados deram sua sanção a essas coisas, como a papões que amedrontam os espíritos simples. E como esta é a natureza da mitologia, e como ela tem o seu lugar no plano da vida social bem como na história dos fatos reais, os antigos agarravam-se aos seus sistemas de educação de crianças e aplicavam-nos aos homens de idade madura; e por meio da poesia supunham poder satisfatóriamente disciplinar todos os períodos da vida. Mas agora, depois de longo tempo, a escrita da história e da filosofia vieram para a frente. A filosofia, entretanto, é coisa para poucos, ao passo que a poesia é própria para as massas.

As morais, portanto passaram a ser apoiadas pelas sanções religiosas, porque o mistério e o sobrenatural fornecem um suporte que por si mesmas não possuem as coisas empíricamente conhecidas e genéticamente compreendidas; os homens são mais fácilmente governados pela imaginação do que pela ciência. Mas seria essa utilidade moral a fonte ou a origem da religião?

Extraído de História da Civilização - Primeira parte, Tomo 1 por Will Durant

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