Em 1976, a Escola da Ponte defrontava-se com um complexo conjunto de problemas: o isolamento face à comunidade de contexto, o isolamento dos professores; a exclusão escolar e social de muitos alunos, a indisciplina generalizada e agressões a professores, a ausência de um verdadeiro projecto e de reflexão crítica das práticas...
Nada foi inventado na Escola da Ponte, mas quando se compreendeu que eram precisas mais interrogações que certezas, foram definidos como objectivos:
- concretizar uma efectiva diversificação das aprendizagens tendo por referência uma política de direitos humanos que garanta as mesmas oportunidades educacionais e de realização pessoal para todos;
- promover a autonomia e a solidariedade;
- operar transformações nas estruturas de comunicação e intensificar a colaboração entre instituições e agentes educativos locais.
Considerámos indispensável alterar a organização da escola, interrogar práticas educativas dominantes. Há trinta anos, a Escola da Ponte era um arquipélago de solidões. Os professores remetiam-se para o isolamento físico e psicológico, em espaços e tempos justapostos. Entregues a si próprios, encerrados no refúgio da sua sala, a sós com os seus alunos, o seu método, os seus manuais, a sua falsa competência multidisciplinar, em horários diferentes dos de outros professores, como poderiam partilhar, comunicar, desenvolver um projecto comum?
O trabalho escolar era exclusivamente centrado no professor, enformado por manuais iguais para todos, repetição de lições, passividade... As crianças que chegavam à escola com uma cultura diferente da que aí prevalecia eram desfavorecidas pelo não reconhecimento da sua experiência sociocultural. Algumas das crianças que acolhíamos transferiam para a vida escolar os problemas sociais dos bairros pobres onde viviam. Exigiam de nós uma atitude de grande atenção e investimento no domínio afectivo e emocional. Também tomámos consciência de novas e maiores dificuldades. Por exemplo, de que não passa de um grave equívoco a ideia de que se poderá construir uma sociedade de indivíduos personalizados, participantes e democráticos enquanto a escolaridade for concebida como um mero adestramento cognitivo.
Se os pais eram chamados à escola, pedia-se castigo para o filho ou contributos para reparações urgentes. A escola funcionava num velho edifício contíguo a uma lixeira. Nas paredes, cresciam ervas. O banheiro estava em ruínas e não tinha porta..
Compreendemos que precisávamos mais de interrogações que de certezas. E empreendemos um caminho feito de alguns pequenos êxitos e de muitos erros, dos quais colhemos (e continuaremos a colher) ensinamentos, após termos definido a matriz axiológica de um projecto e objectivos que, ainda hoje, nos orientam. Na Escola da Ponte, como em outros lugares, será indispensável alterar a organização das escolas, interrogar práticas educativas dominantes. É urgente interferir humanamente no íntimo das comunidades humanas, questionar convicções e, fraternalmente, incomodar os acomodados.
Apesar dos progressos verificados ao nível da teoria (e até mesmo contra eles), subsiste uma realidade que as excepções não conseguem escamotear: no domínio das práticas, o nosso século corre o risco de se completar sem ter conseguido concretizar sequer as propostas do fim do século que o precedeu. Infelizmente, não vivemos o fim do "século da criança", mas somente o princípio da Escola. Desde há séculos, somos destinatários de mensagens que raramente nos dispomos a decifrar e o que acontece é um regresso cíclico às mesmas grandes interrogações. Todos os movimentos reformadores se assemelham na rejeição do passado, mas a especulação teórica sem caução da prática engendra apenas reformulações de uma utopia sempre por concretizar.
Não há modelos, mas há referências que poderão ser colhidas neste projecto, como em tantos outros anonimamente construídos, cujo intercâmbio urge viabilizar. A concepção e desenvolvimento de um projecto é um acto colectivo, no quadro de um projecto local de desenvolvimento, e pressupõe uma profunda transformação cultural. Nos últimos anos, muitos professores visitaram a Ponte, muitas escolas dela se acercaram. Poderemos já falar da existência de uma “rede”, ou “fraternidade educativa”. O estudo agora divulgado vem ao encontro de uma necessidade manifestada por esses professores e pelas suas escolas. Incide sobre a reelaboração da cultura pessoal e profissional, no contexto de uma formação indissociável da ideia de mudança escolar e social.
O projecto da Escola da Ponte “constitui um sinal de esperança para todos os que acreditam e defendem a possibilidade de construir uma escola pública aberta a todos os públicos, baseada nos valores da democracia, da cidadania e da justiça, que proporciona a todos os alunos uma experiência bem sucedida de aprendizagem e de construção pessoal”(1) . A Ponte foi inspiração para muitos professores que não desistiram de fazer dos seus alunos seres mais sábios e pessoas mais felizes.
Ao longo de trinta anos, participei nesse projecto. Dados os excelentes resultados obtidos (2) , ele passou de mero objecto de curiosidade a locus de pesquisa. Sendo o seu maior crítico, sempre me manifestei relutante a mostrá-lo como “fórmula inovadora” e recusei muitos pedidos, que me foram dirigidos, para publicar algo que o “explicasse”. Nos últimos anos, foram publicadas muitas obras por educadores que desenvolveram pesquisas nessa escola, na diversidade de abordagens que o projecto permite realizar. Agora, que decidi afastar-me (fisicamente) da Escola da Ponte, creio ser o momento de dar início a algumas reflexões, não sobre um passado cristalizado a imitar, mas porque a Ponte representa “uma singularidade, na qual é possível vislumbrar a totalidade sistémica dos problemas do quotidiano das escolas, bem como algumas hipóteses sólidas de possíveis soluções que contrariam o nosso proverbial cepticismo”(3) .
Nesta primeira tentativa de “explicação” da Ponte, é meu ensejo descrever um dos modos de fazer coincidir a formação de professores com a construção autónoma de uma profissionalidade responsável.
Texto reproduzido com permissão do seu autor, o Educador e Prof. José Pacheco.
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