sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Siddhartha e o Descondicionamento

Siddhartha vagueou pelo bosque, absorto em profundos pensamentos.

Encontrou Gautama, o Sábio, e como, ao saudá-lo respeitosamente, lhe visse a expressão tão cheia de bondade e paz, encheu-se de coragem e pediu-lhe autorização para lhe falar. Silenciosamente, o Sábio acenou com a cabeça, dando-lhe permissão.


- Ontem tive o prazer de ouvir os teus maravilhosos ensinamentos, ó Sábio. Vim de longe com o meu amigo para te ouvir, e agora o meu amigo ficará contigo, jurou-te fidelidade. Eu porém, reatarei a minha peregrinação.

- Como desejares - redarguiu o Buda, delicadamente.

- Talvez eu fale de modo muito ousado - prosseguiu Siddhartha -, mas não desejo deixar o Sábio sem lhe comunicar sinceramente os meus pensamentos. O Sábio ouvir-me-á um pouco mais?

O Buda acenou de novo com a cabeça, silenciosamente.

- Numa coisa, acima de tudo, admirei os teus ensinamentos ó Sábio. É tudo absolutamente claro e provado. Mostras o mundo como uma cadeia completa, ininterrupta, uma cadeia eterna, unida entre si por causa e efeito. Nunca tal foi apresentado tão claramente, nunca foi tão irrefutávelmente demonstrado. Estou certo de que o coração de todos os Brâmanes baterá mais depressa quando virem o mundo através dos teus ensinamentos, um mundo completamente coerente, sem uma falha, límpido como cristal, sem depender do acaso nem dos deuses. Se é bom ou mau, se a vida em si é dor ou prazer, se é incerto, talvez não tenha importância; mas a unidade do mundo, a coerência de todos os acontecimentos, o abranger do grande e do pequeno da mesma nascente, da mesma lei de causa, de tornar-se e morrer - isso ressalta claramente dos teus exaltados ensinamentos, ó Ser Perfeito. Mas, de acordo com os teus ensinamentos, essa unidade e consequência lógica de todas as coisas quebra-se num ponto. Através de uma pequena fenda, introduz-se no mundo da unidade algo estranho, algo novo, algo que não estava lá antes e não pode ser demonstrado e provado: a tua doutrina de subir acima do mundo, de salvação. Através dessa pequena fenda, porém, a eterna e simples lei do mundo falha de novo. Perdoa ter levantado esta objeção.


Gautama escutara-o silenciosamente, imóvel. Por fim falou, na sua voz bondosa, cortês e clara:

- Escutaste bem os ensinamentos, ó filho de brâmane, e só te honra teres pensado tão profundamente neles. Encontraste uma falha. Pensa bem nela, de novo. Deixa-me advertir-te, a ti que tens sede de saber, contra a noite das opiniões e o conflito das palavras. As opiniões não significam nada; podem ser belas ou feias, inteligentes ou idiotas, qualquer as pode aceitar ou rejeitar. Mas os ensinamentos que escutaste não são a minha opinião e o seu objetivo não é explicar o mundo àqueles que tem sede de saber. O seu objetivo é completamente diferente; o seu objetivo é a libertação do sofrimento. É isso que Gautama ensina, e nada mais.

Não te zangues comigo, ó Sábio - pediu o jovem. - Não te falei para discutir contigo acerca de palavras. Tens razão ao dizer que as opiniões pouco significam, mas permite que acrescente mais uma coisa. Nem por um momento duvidei de ti, nem por um momento duvidei que fosses o Buda, que tivesses alcançado o mais alto objetivo, que tantos milhares de brâmanes e filhos de brâmanes se esforçam por alcançar. Conseguiste-o com a tua procura, a teu modo, através da meditação, do saber e do esclarecimento. Não aprendeste nada através de ensinamentos, e por isso eu penso, ó Sábio, que ninguém encontra a salvação através deles. A ninguém, ó Sábio, poderás comunicar, por palavras e ensinamentos,o que te aconteceu na hora do teu esclarecimento. Os ensinamentos do Buda iluminado abrangem muito - como viver virtuosamente, como evitar o mal, muito. Mas há uma coisa que essa doutrina clara, meritória, não contém: o segredo do que o Sábio conheceu pessoalmente, aquilo que só a ele, entre centenas de milhares, foi dado conhecer. Foi isso que pensei e de que tive consciência quando ouvi os teus ensinamentos. É por isso que vou seguir o meu próprio caminho - não em busca de outra e melhor doutrina, pois sei que não existe, mas para abandonar todas as doutrinas e todos os mestres e alcançar sózinho o meu objetivo. Ou morrer. No entanto, ó Sábio, recordarei muitas vezes esta hora em que os meus olhos viram um homem santo.

Os olhos do Buda estavam baixos, o seu rosto insondável exprimia absoluta equanimidade.

- Espero que não estejas enganado no teu raciocínio - disse, lentamente, o sábio. - Oxalá alcances a tua meta! Mas, dize-me uma coisa, viste o meu grupo de homens santos, os meus muitos irmãos que juraram fidelidade à doutrina? Pensas, ó samana de longe, que seria melhor para todos eles repudiar os ensinamentos e regressar à vida do mundo e dos desejos?

- Jamais me acudiu semelhante pensamento! - exclamou Siddhartha. - Possam todos respeitar a doutrina! Possam todos alcançar o seu objetivo! Não me compete julgar outra vida. Só devo julgar o que me diz respeito, escolher e rejeitar. Nós, samanas, procuramos libertar-nos do Eu, ó Sábio. Se fosse um dos teus adeptos, receio que só o seria superficialmente, que me enganaria a mim próprio pensando que estava em paz e alcançara a salvação, quando na verdade o Eu continuaria a viver e a desenvolver-se, pois ter-se-ia transformado na tua doutrina, na minha fidelidade e no meu amor por ti e pela comunidade dos monges.

Com um meio sorriso de imperturbável alegria e cordialidade, o Buda fitou firmemente o desconhecido e mandou-o embora, com um gesto quase imperceptível.

- És inteligente, ó samana, sabes falar inteligentemente, meu amigo. Acautela-te contra demasiada inteligência.

O Buda afastou-se e o seu olhar e o seu meio-sorriso ficaram para sempre gravados na memória de Siddhartha.

"Nunca vi um homem olhar e sorrir, sentar-se e caminhar como ele", pensou. "Também gostaria de olhar e sorrir, sentar-me e caminhar assim, tão livre, tão respeitável, tão dominado, tão inocente, tão infantil e misterioso. Um homem só olha e caminha assim quando venceu o Eu. Também vencerei o meu Eu."

"Vi um homem, um único", continuou Siddhartha a pensar, "perante o qual devo baixar os olhos. Nunca mais baixarei os olhos perante nenhum homem. Nenhuma outra doutrina me atrairá visto a deste homem não me ter atraído.

"O Buda roubou-me, o Buda roubou-me e, contudo, deu-me algo de maior valor. Roubou-me o meu amigo, que acreditava em mim e acredita agora nele; era a minha sombra e agora é a sombra de Gautama. Mas deu-me Siddhartha, devolveu-me a mim próprio."

O Descondicionameno é o caminho que pode permitir ao Leitor, conhecer pessoalmente o que o Sábio e Siddhartha alcançaram, seguindo o seu próprio caminho, encontrando-se consigo mesmo!


retirado de Siddhartha de Herman Hesse - Editorial Minerva Fevereiro 2 Edição reimpressa 1996

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