O
tema deste artigo é a necessidade de prevenir a violência através de uma
educação voltada para o desenvolvimento de pessoas saudáveis e felizes e, de
forma mais ampla, para a superação da sociedade patriarcal, que constituiu o
obstáculo fundamental para isso.
Seu principal objetivo é o de interessar o
público na transformação da educação tradicional em outra que esteja a serviço
do desenvolvimento pessoal da consciência – indispensável à evolução social.
Fala-se
muito da violência atual. Por um lado, porque o mundo se tornou mais violento
que nunca, mas também porque se começou a ter consciência que desde o começo da
civilização até mesmo a história foi violenta. Por outro, porque a injustiça do
sistema se torna mais aparente e interessa aos opressores desarmar e pacificar
os oprimidos.
Curiosamente, entretanto, em uma cultura que recebeu as
influências de Marx e de Freud, já quase não se fala na raiz psicológica
principal da violência, que é o espírito explorador associado à cobiça, à
insatisfação crônica e à perda da empatia.
No
Chile, quando eu era criança, circulava uma piada atribuída a um personagem
chamado D.Otto – um alemão cujos literalismo e espírito sistemático o impediam
de ver a realidade, transformando-o ridiculamente num idiota. Nessa piada,
contava-se a reação de D. Otto ao saber que, quando da visita do namorado de
sua filha na noite anterior, o jovem casal tinha feito coisas indevidas no sofá
do salão. D.Otto solucionou o problema de maneira radical: vendeu o móvel em
questão. A maneira como hoje se fala de violência, sem se interessar pela
pesquisa de para que serve, ou a que injustiça se reage, parece análoga; quando
os episódios de terrorismo infantil se tornam cada vez mais freqüentes,
suspeito que se queira ensinar as pessoas a não olharem além da superfície das
coisas e das aparências, como se se tratasse de algo estranho e sem motivo, ou
de um mero “problema da juventude” (como no filme Elefante).
Meu
propósito aqui não é tratar das raízes da violência; entretanto, além de causas
mais ou menos específicas, chamadas em psicanálise de “oralidade agressiva”,
simplesmente lembrarei que é preciso ter em mente dois fatores universais: o
escasso desenvolvimento psicoespiritual (ou seja, a falta de saúde mental) e a
condição patriarcal da sociedade; foi esta que determinou que as tendências
agressivas e competitivas do homem se expressem na marcha dos acontecimentos
coletivos muito mais do que a ternura ou a cooperação, que se associam à
maternidade e à mulher.
Se
o que digo é verdade, deduz-se que se contribui para a paz não só ajudando a
saúde mental da sociedade, mas também orientando-a para a transcendência de seu
caráter patriarcal. Os que se preocupam com a violência, e mais geralmente os
que se ocupam com os milhares de problemas que afetam coletivamente a
sociedade, não ligam para estas coisas. Parece que insistem em cuidar dos
sintomas e não de sanar o mal a fundo. Não levam em conta o que já dizia Erich
Fromm, que “a destrutividade é a forma como cada um se volta contra a sua
incompletude”. Mas como é óbvio que o desleixo com o essencial não ajudou, está
na hora de a sociedade cuidar do subdesenvolvimento da consciência e de os
políticos, que a representam, darem a devida prioridade ao muito descurado
desenvolvimento integral da natureza – chave da felicidade e condição
indispensável para uma sociedade saudável.
Já
que é óbvio que fomentar tais coisas através das religiões, das escolas
espirituais tradicionais ou da psicoterapia somente conseguiriam chegar a uma
minoria, para mim, a única forma de se contribuir maciçamente para o
desenvolvimento humano seria através da sua prevenção – evitando, assim, as
conseqüências sociais da psicopatologia. Isto, por sua vez, somente poderia ser
imaginável através da educação. Se o mundo é violento, é porque a criança é
assim e se se tem a educação que se tem, é principalmente porque não se
desenvolveu até hoje uma forma de educação que pudesse levar a criança além da
mentalidade patriarcal.
Pelo
contrário, a educação patriarcal está dirigida precisamente para a perpetuação
da mentalidade tradicional e das habituais formas de vida – cujas conseqüências
agora se apresentam problemáticas. Entretanto, assim como não se vê o próprio
ponto cego, também não se vê a fraude maciça que penetra no que se costuma
chamar de “educar”, destinada principalmente a passar nas provas e assim
alcançar vantagens no mercado de trabalho. Tudo o que se faz priva o educando
da oportunidade do desenvolvimento emocional, social e espiritual.
Então,
nada mais promissor para a paz do mundo que uma alternativa para a educação
patriarcal que se conhece, através da qual se pretende, arrogantemente,
transmitir valores, sem perceber a transmissão de pragas. Mas como ?
Principalmente – venho propondo através de congressos de educação, de livros e
o repito aqui – através de uma educação “trifocal”, voltada para o
desenvolvimento harmônico dos três cérebros que se associam na tríade do
pensar, sentir e querer, como as três “pessoas interiores” (que correspondem às
da família nuclear de pai, mãe e filho). Não há dúvida de que a educação
tradicional ou patriarcal não só privilegia o intelecto, mas também se volta
sistematicamente contra a instintividade da natureza animal, aviltando-a e
dando origem à auto-repulsa sistemática, tão bem descrita pelo modelo freudiano
da mente. Segundo tal modelo, o “superego” de cada um se volta contra “isso” e
as ordens da cultura autoritária se opõem às ordens da Natureza. Além disso, é
mais claro, apesar de Rousseau e da retórica atual que gira em torno da
recuperação de valores, que a educação não somente não favorece o desenvolvimento
afetivo, mas também o posterga ou o perturba.
Fala-se
bastante, hoje em dia, da educação integral ou holística, e a Unesco proclama
um ideal holístico quando reconhece a importância de aprender, não somente a
fazer e a aprender, mas a conviver e a ser. Entretanto, parece imperar certa
confusão entre a retórica e a realidade, algo parecido com o que ocorre com a
democracia no âmbito político. É precisamente a crise da educação que prova a
irrelevância e obsolescência do afã de transmitir, principalmente a informação,
quando os jovens necessitam de uma educação que os ajude a crescer antes de
tudo como seres humanos, em lugar de se lhes impor um regime alienante.
Como
seres tricerebrados – dotados do cérebro de réptil, instintivo, do cérebro meio
relacional, que se herda dos ancestrais mamíferos, além do neocórtex
propriamente humano, no qual se assenta o potencial de sabedoria (ou demência)
-, seria desejável que fôssemos educados como seres completos, capazes de
equilíbrio e sinergia entre as suas faculdades. Isto implicaria incluir um
aspecto interpessoal e afetivo nos futuros programas de educação e também um
elemento estimulador dirigido à liberação da espontaneidade.
Além disso, essa
educação holística ou integradora deverá ocupar-se daquilo que, sem ser
pensamento, emoção ou volição, constitua seu contexto: a consciência
propriamente dita, ou o aspecto transpessoal da mente, do qual depende a
vitalidade dos valores e sem cujo desenvolvimento a vida perde sentido. Mas
como ?
Certamente
isto vai requerer uma redefinição da educação para levar em conta os elementos
de autoconhecimento e aprendizagem relacional etc., bem como a reforma
curricular correspondente. Ora, dificilmente se pode esperar muito de uma
mudança que não passe por uma formação alternativa de educadores, que permita
que um certo quórum de mestres tenha acesso à transformação e à saúde mental
necessária para ensinar as disciplinas vivenciais que deveriam integrar os
futuros programas. Mais precisamente, será necessário oferecer aos futuros
professores e aos gestores da educação cursos e oficinas suplementares nas
áreas do autoconhecimento, das relações humanas e do cultivo da consciência – e
especialmente levar cursos semelhantes ao pessoal docente das escolas.
Diante
de tal proposta, é fácil perguntar se por acaso existe um método para a
formação dos professores dessas áreas que seja suficientemente eficaz e seja
economicamente possível de ser posto em prática, pois propostas como a de
recorrer às contribuições da Psicanálise, ao Behaviorismo, aos cursos de
Comunicação, de Psicodrama ou simplesmente de Gestalt, apenas, ofereceriam uma
cultura terapêutica superficial e não o nível de transformação que os
professores em questão necessitariam para se tornar agentes de uma transmissão
viva de valores. Por isso, é de grande importância contar com um método
comprovadamente eficaz, e ainda rápido, que se proponha como alternativa para a
formação de educadores. Ela viria a constituir algo como uma “chave mestra”
para essa transformação da educação, de modo que seja uma atividade que venha a
dar realidade à tão citada, mas apenas sonhada, proposta da Unesco.
Por
isso, quando respondi ao convite para escrever algo para este volume,
considerei que esta seria uma oportunidade não somente para poder destacar a
importância do desenvolvimento do potencial da educação tragicamente
desperdiçado, mas também para poder informar a respeito de um método de
formação de educadores. Este método já deu excelentes resultados nas já
mencionadas áreas que o mundo acadêmico até agora descuidou – desde o
autoconhecimento até a atenção ao nível profundo e transpessoal da mente.
Escrevi
sobre a história e o conteúdo desse currículo, que complementa a formação
tradicional de professores, em meu livro “Cambiar la Educación para Cambiar
el Mundo” (Mudar a Educação para Mudar o Mundo). Nele incluo os comentários
de trinta professores que ensinam em diversas escolas de educação do Chile e
que foram convocados pelo Ministério de Educação para fazerem a experiência
desse programa vivencial. Aqui só direi que se trata de algo que vem sendo
aplicado em diversos países ao longo de muitos anos de formação de terapeutas e
que, depois de sua primeira aplicação no Chile, na virada do milênio, despertou
o interesse de educadores mexicanos, argentinos, italianos e outros, e mais
recentemente foi reconhecido pelo governo catalão.
Já
que este método – conhecido como programa SAT para o “desenvolvimento pessoal e
profissional” - resultou da evolução do meu trabalho no decorrer dos últimos
trinta anos, o meu entusiasmo poderia ser considerado suspeito, particularmente
agora, no momento histórico que poderia perfeitamente ser chamado de “idade da
propaganda e da comodificação”, quando até a Ciência se coloca a serviço dos
negócios e do poder. Não tenho provas de minha inocência, de modo que a prova
da verdade do que afirmo, ao anunciar que gerei (na verdade, por acaso) um
recurso de interesse público, deverá basear-se na avaliação de seus futuros
resultados. Entretanto, não há como duvidar; de fato, colaborei com as diversas
equipes docentes em seus sucessivos módulos. Da observação repetida logo se
percebe que a grande maioria dos participantes dos programas não somente
consegue conhecer-se melhor, como também melhorar as suas relações interpessoais,
além de adquirir uma notável capacidade de ajuda, que depende mais de sua
própria transformação que da aquisição de idéias ou técnicas.
O
formato do processo é o de três seminários sucessivos, de dez dias de duração
cada um, repetidos anualmente. Quem ler esta afirmação pode-se perguntar como é
possível rapidez e eficiência tão inauditas num âmbito que não se limita às
palavras, mas que também deixa muitos dizendo que sua vida se divide em duas
partes: antes e depois de tal experiência !
A
resposta, creio, está em parte nos novos recursos que integram o programa, mas,
principalmente, na forma como, através dele, se combinam, de tal maneira que “o
todo é mais que a soma das partes”.
O programa SAT é um método específico de reparação da família
intrapsíquica e, mais amplamente, das relações interpessoais. Seus componentes
são uma visão do “bom amor” como equilíbrio entre compaixão, reverência e
capacidade de satisfação, assim como uma compreensão das formas do falso e
degradado amor; a prática da observação temporária do pensamento num contexto
meditativo; a tomada de consciência do corpo e do mundo emocional; a pesquisa
vivencial da mente em repouso; uma nova forma de teatro terapêutico; o cultivo
da entrega através do movimento espontâneo; a terapia Gestalt; a psicologia dos
tipos de personalidade e um novo laboratório de exercícios psicológicos.
Através deles, as pessoas aprendem a trabalhar a si mesmas, tendo o estímulo e
o apoio das demais, de tal forma que o grupo, em seu conjunto, se torna um
sistema psicologicamente auto-reparador.
Os
resultados alcançados não podem ser atribuídos unicamente à aplicação de um
programa. É necessário uma escola viva: um currículo assumido pelas equipes
docentes de seus respectivos módulos, cuja evolução pessoal e perícia acumulada
através de muitos anos permitam a realização de algo que não poderia ser bem
executado por novatos a partir de idéias e métodos aprendidos por observação ou
através de livros.
Sinto-me
como poderia sentir-se um camponês que, arando o seu terreno, encontrou um
tesouro, ou como o personagem do conto de fadas que descobre as propriedades
mágicas de uma planta que cresceu no pátio de sua casa. Simplesmente quis
partilhar, anos atrás, com minha mãe e com alguns amigos algo do que havia
alcançado ao entrar no que poderia chamar-se de a fase carismática da minha
vida. Meu trabalho logo despertou o interesse de muitos pesquisadores em
Berkeley, no início dos anos 70. Mais tarde, a improvisação daquela época me
serviu de base para os programas SAT – já descritos -, os quais, à medida que
foram evoluindo, tornaram-se cada vez mais breves e poderosos. Tais programas
começaram em resposta ao interesse de psicoterapeutas na Espanha, mas, com o
tempo, não só eles estavam interessados; havia terapeutas também de outros
países.
Acudiram mais professores, até que, em parte por suas observações e em
parte porque com o passar dos anos entendo um pouco melhor da trágica condição
do mundo, achei que o fruto do trabalho da minha vida bem que poderia ser
suficiente para desencadear a transformação de que a educação tanto necessita.
Tomara
que estas palavras possam interessar aos governos, aos administradores da
educação, às universidades, aos colégios e às escolas e os induzam a testar o
programa SAT para que possam comprovar a verdade do que foi descrito aqui, pois
assim não somente responderiam adequadamente à crise educacional, mas também
começariam a contribuir para o nascimento de uma geração mais sadia e sábia.
Que as minhas palavras também possam chegar às pessoas que têm a possibilidade
de colaborar com o dinheiro que será necessário para oferecer bolsas aos
empobrecidos educadores e também tornem possível a produção de programas e a
materialização deste projeto, tendo em vista o limitado orçamento educacional
dos empobrecidos governos – cada vez mais sujeitos à vontade do império
transnacional do dinheiro.
Ficaria
muito mais feliz se algum dia o meu pensamento chegasse aos poderosos do
império global, aos quais penso que, por justiça, mais que a qualquer outro
cabe financiar a transformação da sociedade – tão sofrida com o resultado de
suas decisões -, para que os jovens de hoje possam viver amanhã em paz e amor e
gerem formas de vida e instituições melhores que as da civilização patriarcal
em sua crise de obsolescência.
Resumo: A violência é um aspecto de uma problemática complexa, cujo
fundo está no subdesenvolvimento emocional; por isso, a paz do mundo depende da
possibilidade de prevenção da crescente deterioração psicoespiritual. Chamo a
atenção para o fato de que somente a transformação da educação poderá levar ao
êxito, e dou notícia de um método para a necessária formação alternativa de
educadores que tal transformação irá requerer.
Cláudio Naranjo - Chileno,
Médico e músico. Fundou o Instituto SAT (Berkeley-USA), uma escola integrativa
psicoespiritual. Pioneiro do Movimento do Potencial Humano e da Psicologia
Transpessoal. Membro do Institut of Research de Londres, do USA Club
of Rome e participante do Parlamento de Religiões. Dedica-se à educação
integrativa e transpessoal em vários países. Autor dos livros: The One Question; Psicologia de la Meditación; La
Única Búsqueda; La Agonía del Patriarcado; El Niño Divino y El Héroe; Entre
Meditación y Psicoterapia; Gestalt de Vanguardia; Cambiar la Educación para Cambiar
el Mundo, entre outros.
Cláudio Naranjo – do livro A PAZ COMO CAMINHO – Dulce Magalhães (www.unipaz.org.br)
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