sexta-feira, 5 de outubro de 2012

E se falássemos da avaliação?

Prefácio do livro: A escola da Ponte - E se  falássemos da avaliação? - Prof. José Pacheco


Gente de boa memória jamais entenderá aquela escola. Para entender é preciso esquecer quase tudo o que sabemos. A sabedoria precisa de esquecimento. Esquecer é livrar-se dos jeitos de ser que se sedimentaram em nós, e que nos levam a crer que as coisas têm de ser do jeito como são. Não. Não é preciso que as coisas continuem a ser do jeito como sempre foram.

Rubem Alves1


A Escola da Ponte, em Vila das Aves, Portugal, é uma utopia concreta em termos de educação escolar. É uma verdadeira revolução quando confrontada com o modelo disciplinar instrucionista que há séculos caracteriza grande parte das escolas. Seus mentores, entretanto, logo advertem que a Ponte não deve ser vista como modelo, como algo a ser copiado por outras instituições de ensino. Ora, se não é para ser replicada, “então, para quê serve?” Qual o sentido de conhecermos sua prática?

  • Provocar nossa reflexão;
  • Mostrar que é possível;
  • Questionar nossas práticas e, em especial, nossa postura diante da realidade (que, normalmente, está muito marcada pela impotência, pelo impossível);
  • Propiciar o privilégio da reflexão sobre o porquê de a experiência estar dando certo    (normalmente estamos refletindo sobre o porquê do fracasso da escola).
Conta-se que, até que fosse descoberto um cisne negro na Austrália, a verdade que se tinha era a de que todo cisne era branco2. Bastou a existência de um único cisne negro para pôr por terra a concepção de que todos eram brancos. Nesta perspectiva, podemos dizer que a Escola da Ponte é uma espécie de cisne negro da Pedagogia, pois quebra a idéia, tantas vezes corrente entre os professores, de que “todas as escolas são iguais”, de que “sempre foi assim”, de que “é assim mesmo”. A sua existência afirma a possibilidade ou, mais ainda, a efetividade de uma outra configuração da prática escolar em geral, e da avaliação, em particular.

Albert Einstein dizia que a maior insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes. Recordemos o óbvio: as escolas que fazem diferença só conseguem isto por fazerem diferente! Creio que é fundamental a tomada de consciência e a ocupação da Zona de Autonomia Relativa (ZAR)3. Trata-se do espaço entre o limite externo (dado pela Natureza e Sociedade) e o limite interno (dado pela Projeção e/ou pela Contradição do Sujeito/Grupo).

Analisando as escolas que fazem diferença, os professores que fazem diferença, percebemos que não foram aqueles que ficaram esperando o mundo mudar para daí tentarem fazer algo, mas sim aqueles que, ao mesmo tempo em que estavam comprometidos com a mudança do mundo, engajaram-se na mudança daquilo que era possível na escola (e que até então parecia impossível, nem tanto por uma análise criteriosa, mas muito mais pelo peso da tradição, do costume, do “sempre foi assim”, “uma pessoa não vai mudar a realidade”, “você é muito jovem, vai ver que não adianta”, etc.). Normalmente, os educadores ficam muito ligados aos limites externos e não se dão conta que os limites internos são os que estão, em grande parte, restringindo a ação. Quando tomamos consciência dos limites internos, isto é, aqueles sobre os quais temos controle de imediato, um conjunto de possibilidades de práticas se abre. A ZAR configura-se justamente como um espaço possível para se caminhar, para se iniciar um novo curriculum escolar. Foi exatamente isto que aconteceu com aquele grupo de educadores na Escola da Ponte que, há 36 anos, ao invés de ficar engrossando o coro das lamúrias, revolveu arregaçar as mangas e reinventar a escola e a avaliação. Nesta mesma linha de raciocínio, a Profa. Cláudia Santa Rosa, educadora brasileira que conhece profundamente a Ponte, tendo vivido o seu cotidiano durante os vários meses em que fez a pesquisa, afirma em sua bela e consistente tese de doutoramento:
A curto e médio prazo, a qualidade da escola pública não é tributária de políticas educacionais macros, tampouco de massificados e efêmeros programas, projetos ou política de governo, mas sim da decisão dos (as) profissionais que nela trabalham de tornarem-se autores (as) e protagonistas, no processo de construção e implementação do PPP.4

A avaliação tem sido uma temática bastante enfatizada pelos professores. Para alguns, de fato, ela seria o que de mais importante acontece na escola, como se fosse um fim em si mesma e não um meio para se avançar nas grandes finalidades da escola (aprendizagem efetiva, desenvolvimento humano pleno e alegria crítica –docta gaudium- de cada um e de todos os alunos). Não temos dúvida de que a avaliação é uma estratégia fundamental para a existência, considerando que não nascemos prontos, nem programados (nossa programação biológica, embora fundamental para a sobrevivência, é mínima face ao aprendizado que teremos ao longo da vida), que nos constituímos por nossa atividade e, ao agir, podemos acertar ou errar. A avaliação nos ajuda na tomada de consciência dos acertos, o que é decisivo para o fortalecimento da autoestima, propiciando condições para novas aprendizagens (ampliação da Zona de Desenvolvimento Proximal); além disto, reforça a validade do percurso que está sendo feito. A tomada de consciência dos erros, por sua vez, é importante para que possamos nos comprometer com sua superação, aprender com eles. Uma boa avaliação aponta ainda elementos potenciais, qual seja, que não estão ligados aos objetivos inicialmente traçados –ficando, portanto, fora da questão do acerto ou do erro–, mas que, muitas vezes, são mais importantes do que aquilo que se pretendia a princípio, por revelar dinâmicas interiores em desenvolvimento no sujeito. A avaliação é, sem dúvida, uma conquista da espécie humana.

Todavia, consideramos que, em muitas situações, a ênfase que os educadores têm dado à avaliação da aprendizagem, tanto em termos de práticas quanto de discursos, é um tanto excessiva.

Os alunos ainda não perderam esta terrível mania de acreditar mais no que fazemos do que no que falamos. Nós falamos toda hora que o importante não é a nota e eles não acreditam, só porque, com relação a provas e notas, fazemos semanas especiais, dias especiais, horários especiais, papéis especiais, dificuldades especiais, comportamentos especiais, rituais especiais, conselhos especiais, assinaturas especiais dos pais, datas especiais para entrega, pedidos especiais de revisão, legislação especial, reuniões especiais com professores e pais, caderneta especial, ameaças especiais através da nota, rotulações especiais em função da nota, tratamento especial para os alunos de acordo com as notas que tiram etc. Tem sua lógica o aluno dar muita ênfase à nota, pois sabe que, no fundo, é ela que decide sua vida na escola...5

Ainda que, muito provavelmente, essa não fosse a intenção original dos organizadores, a prática avaliativa que este livro resgata é uma denúncia desta ênfase exacerbada, justamente por revelar como pode ser a avaliação em outros moldes: como os leitores terão oportunidade de ver, na Escola da Ponte a avaliação está fortemente presente no cotidiano dos alunos e educadores, mas, simultaneamente, marcada por uma sutileza e até mesmo, ousamos dizer, por uma delicadeza, que faz com que praticamente passe desapercebida, porque incorporada organicamente ao currículo.
Há vinte anos, quando pedi ao amigo Prof. Danilo Gandin que fizesse o prefácio de meu primeiro livro de avaliação, numa das ricas conversas informais que tivemos, ele me dizia, a partir de sua vivência infantil no campo, que falar de avaliação na escola era mais ou menos como lavar porcos: logo que se terminava de lavar o porquinho, este corria faceiro em direção ao chiqueiro e sujava-se todo novamente... Numa linguagem filosófica, comparava o desafio da avaliação ao personagem da mitologia grega, Sísifo: estava condenado a repetir eternamente a tarefa de empurrar a pedra até o topo da montanha, de onde ela rolaria abaixo novamente.

Qual o “segredo” da Ponte para superar esta fatalidade da avaliação, tal como a descrita no mito? Qual o segredo das escolas que fazem diferença, das escolas que conseguem avançar substancialmente na aprendizagem efetiva, no desenvolvimento humano pleno e na alegria crítica de seus alunos? É certo que tudo está relacionado, que devemos considerar os vários aspectos da realidade escolar, etc. Porém, não haveria alguns elementos essenciais, substanciais, nucleares, sobre os quais deveríamos colocar nossa atenção de forma muito especial? O que é mais importante? Já que os recursos materiais e psíquicos são limitados, onde investir prioritariamente? Muito sinteticamente diríamos: pessoas e estruturas, estruturas e pessoas (repetimos os termos em ordem inversa para evitar escapismos dualistas). O “segredo” da Ponte está nas pessoas com uma nova sensibilidade, com um novo olhar sobre os alunos, capazes de construir novas estruturas escolares. Simultaneamente, está nas estruturas, na capacidade de reinventar a organização dos espaços, tempos, saberes, recursos, criando novos dispositivos pedagógicos. Estas estruturas, por seu turno, estão voltadas para as pessoas (ex.: estrutura de formação permanente dos professores; dispositivos pedagógicos centrados nas pessoas). É claro que são as pessoas que produzem as estruturas, mas, por outro lado, as pessoas também são produzidas (não mecanicamente) pelas estruturas. É um processo dialético, de aproximações sucessivas, em que não há gênese absoluta, um ponto a partir do qual todo e qualquer mudança deveria se iniciar.

A construção do livro segue um caminho bastante valorizado pelo Projeto Fazer a Ponte: o diálogo, perguntas e respostas, feitas e dadas por diferentes atores (professores e ex-professores da escola, educadores portugueses e brasileiros, pais de alunos e de ex-alunos e, especialmente, alunos e ex-alunos). Além disto, para facilitar a leitura e a reflexão, os diálogos foram organizados em grandes eixos temáticos, como por exemplo: Avaliação como prática de Aprendizagem, Avaliação e Projeto Educativo, Um portão aberto: uma escola cidadã!, Artes: o despertar da sensibilidade, Educação Física: desenvolvimento de novas linguagens, Progressão... continuada?, Uma transição (de núcleo) a qualquer momento, Instrumentos de avaliação, A avaliação determina nossas práticas educativas, “Eu já sei”: acerto de contas, ou metacognição?, Como é ser uma ilha diante do mundo, que é tão diferente?, O portfólio de avaliação: uma ponte entre diferentes universos, Perfil de aluno e critérios de avaliação etc.

Na Ponte, a avaliação não se destaca, não chama a atenção, muito embora esteja absolutamente presente. Nos principais dispositivos pedagógicos ali desenvolvidos ou aplicados, a avaliação está presente. Por exemplo: a Assembléia da escola (toda sexta-feira, à tarde) tem sua origem na avaliação que os alunos fazem do seu cotidiano, expressa, por sua vez, nos dispositivos do Acho bem e do Acho mal (cartazes que ficam nos murais e os alunos vão registrando). Na Reunião de professores (quartas-feiras, à tarde), os professores avaliam com afinco o Projeto e buscam formas de melhorias. No Debate todos os dias os alunos, entre outras coisas, avaliam o dia de trabalho. Os portfólios também fazem parte da paisagem cotidiana dos ambientes de estudo; eles utilizam destas pastas A-Z, com sacos plásticos, onde ficam os planos quinzenais e as principais atividades que cada aluno desenvolve.

A observação é uma prática constante de avaliação por parte dos professores, sobretudo em termos de valores e atitudes (sem estabelecer ruptura com a avaliação de conhecimentos). Como não existe observação neutra, ela é pautada na matriz axiológica da Ponte: solidariedade, responsabilidade e autonomia.

A autoavaliação é um dos pontos fortes da avaliação na Escola da Ponte, estando também presente em vários dispositivos: Eu preciso de ajuda (aluno, depois de ter buscado sozinho e com os colegas de grupo, não sanou as dúvidas e sinaliza para o professor e demais colegas); Eu já sei (aluno, tendo convicção de seu aprendizado de determinado objetivo, sinaliza para o professor que está pronto para ter uma avaliação mais formal – que também existe na Ponte, mas que é algo muito tranqüilo, pois não serve para classificar, e sim para qualificar).

Merece destaque o Plano da Quinzena; a primeira parte é propriamente o plano a ser desenvolvido na quinzena (atividades coletivas da escola, do projeto do grupo e individual); a segunda parte começa com uma exigente autoavaliação: O que aprendi nesta quinzena? O que mais gostei de aprender nesta quinzena? Outros aspectos que ainda gostava de aprofundar neste projeto; Mas ainda não aprendi a... Por quê? Outros Projetos que gostaria de desenvolver. Na última folha vem ainda as Informações do Professor Tutor, as Observações do Pai/Mãe/Encarregado de Educação e as Observações do Aluno.

Bem, não quero me adiantar e tirar o prazer da leitura deste livro, que recomendo vivamente!

São Paulo, inverno de 2012
Prof. Celso dos S. Vasconcellos

1. A Escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir. Campinas, SP: Papirus, 2001.
2 .Taleb, Nassim Nicholas. A Lógica do Cisne Negro: o impacto do altamente improvável. Rio de Janeiro: BestSeller, 2008, p. 15. 
3.Vasconcellos, Celso dos S. Currículo: a Atividade Humana como Princípio Educativo, 3ª ed. São Paulo: Libertad, 2011, p. 222 e seguintes.  
4.Santa Rosa, Cláudia S. R. Fazer a ponte para a escola de todos (as). Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2008.  
5 Vasconcellos, Celso dos S. Avaliação: Concepção Dialética-Libertadora do Processo de Avaliação Escolar, 18ª ed. São Paulo: Libertad, 2011, p. 18.  



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