terça-feira, 18 de maio de 2010

Iluminação - O que é?

Havia mais de trinta anos que um pedinte se sentava na berma de uma estrada. Um dia, passou por ali um estranho. “Alguma moedinha?” pedinchou o pobre, estendendo automaticamente o seu boné de basebol. “Não tenho nada para te dar”, disse-lhe o estranho. Depois perguntou: O que é isso em que te sentas?” “Nada”, respondeu o pedinte. “Apenas uma caixa velha. Sento-me nela desde que me lembro.” “Algum dia viste o que tem dentro?” tornou o estranho. “Não”, respondeu o pobre. “De que me serviria? Não há nada lá dentro.””Vê o que tem dentro”, insistiu o estranho. O pedinte conseguiu forçar a tampa. Com surpresa, incredulidade e exaltação, verificou que a caixa estava cheia de ouro.

Eu sou aquele estranho que não tem nada para te dar, mas que te diz para olhares para dentro. Não para dentro de uma caixa qualquer, como na parábola, mas para dentro de uma coisa ainda mais próxima: para dentro de ti próprio.
“Mas eu não sou um pedinte”, dirás tu.
Todos aqueles que não encontraram a sua verdadeira riqueza, que é a radiosa alegria de Ser e a paz profunda e inabalável que a acompanha, são pedintes por maior fortuna material que possuam. Esses, para terem valor, segurança ou amor, procuram fora de si farrapos de prazer ou de realização pessoal, enquanto que dentro possuem um tesouro que, não só inclui todas aquelas coisas, mas é também infinitamente maior do que tudo o que o mundo tem para lhes oferecer.

A palavra iluminação invoca a idéia de uma realização sobre-humana, e o ego gosta de a manter dessa forma, mas ela não é mais do que o teu estado natural de unicidade sentida com o Ser. É um estado de ligação com alguma coisa de incomensurável e indestrutível, com uma coisa que paradoxalmente, tu és essencialmente e, no entanto, é muito maior do que tu. É encontrares a tua verdadeira natureza por detrás de um nome e de uma forma. A incapacidade de sentires essa ligação dá origem à ilusão de separação, tanto de ti próprio como do mundo à tua volta. Tu tens então a percepção de ti próprio, consciente ou inconscientemente, como um fragmento isolado. Surge o medo, e o conflito interior e exterior torna-se uma norma.
Gosto da definição simples que Buda deu da iluminação: “o fim do sofrimento”. Não há nada de super-humano nisto, não é verdade? É certo que, como definição, é muito incompleta. Apenas te diz o que a iluminação não é: não é sofrimento. Mas o que resta quando deixa de haver sofrimento? Buda mantém silêncio quanto a isso, e o seu silêncio significa que tens de o descobrir sozinho. Ele utiliza uma definição negativa para que a mente a não possa transformar numa coisa a acreditar ou numa realização sobre-humana, numa meta que não possas alcançar. Apesar desta precaução, a maioria dos budistas ainda acredita que a iluminação é para Buda, não é para eles, pelo menos na vida presente.

Empregou a palavra Ser. Pode explicar o que entende por isso?

O Ser é a Vida Única, eterna e sempre presente para além da miríade de formas de vida sujeitas ao nascimento e à morte. No entanto, o Ser não está apenas para além de, está igualmente dentro de, cada forma como sua essência mais profunda, invisível e indestrutível. Significa isto que lhe tens acesso agora sob a forma do teu Eu mais profundo, da tua verdadeira natureza. Mas não procures agarrá-lo com a tua mente. Não tentes compreendê-lo. Só o poderás conhecer quando a tua mente estiver aquietada. Quando estiveres presente, quando a tua atenção estiver plena e intensamente no Agora, o Ser poderá ser sentido, mas nunca poderá ser compreendido mentalmente. A iluminação é recuperar o conhecimento do ser e manter-se nesse estado de “sentir –percepção”.


Retirado da obra de Eckhart Tolle "O Poder do Agora"

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.