quarta-feira, 12 de maio de 2010

Os Terapeutas do Deserto

(texto baseado na obra de Jean-Yves Leloup)

O homem desperto não é o homem extraordinário, fantástico que tem um grande poder.

Um discípulo diz a Buda:
Pratiquei muito o domínio da matéria e agora posso andar sobre as águas. Estou muito feliz! Espiritualmente, a que nível cheguei? Que vale esta realização? Qual o valor deste poder?

Buda lhe responde:
Vá perguntar o preço da passagem ao barqueiro, na margem do rio.

Fazendo o que Buda lhe pediu viu que não era muito caro, que não valia muito.
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O que se passa para que um de nós que tem uma vida considerada normal, queira de repente, mudar de vida?

Uma mudança de vida será uma travessia de sombra e de luz, com momentos de imensa felicidades e momentos de aflição e solidão. Porquê então querer mudar?

Porque passamos por uma experiência limite de felicidade ou de sofrimento. Na maior parte das vezes o motivo é este último, o mergulho na sombra.

Aí procura alguém que o possa esclarecer sobre o que acaba de lhe acontecer. A função dessa pessoa é em primeiro lugar tranqüilizar sobre o que está a acontecer.

Deverá ser também um guia espiritual, que não somente escuta e interpreta, mas também nos dá diferentes meios, exercícios e práticas que vão permitir retomar o contato com essa experiência inesperada e integrá-la em nossa existência.

O papel do terapeuta ou do acompanhante espiritual é sempre de nos recolocar e marcha. E nessa marcha passamos de uma imagem de nós mesmos, à qual podemos nos apegar, a uma outra imagem de nós mesmos, mais profunda, mais real. Isto supõe que sejamos capazes de abrir mão do antigo. E por isso, às vezes, necessitamos de acompanhamento.

Reencontrar o nosso desejo mais íntimo. Não o que meus pais desejaram para mim, não o que deseja a sociedade, mas o que eu realmente desejo. O terapeuta, por sua escuta, por sua inteligência e sua compaixão, pode acompanhar alguém em direção à sua própria palavra, não a palavra repetida ou aprendida, mas a palavra do seu ser profundo. E vai acompanhar seu amigo no caminho em direção ao seu próprio desejo.

Vá para você mesmo. Eu estou com você! Não se trata de falar no lugar da pessoa, de pensar em seu lugar, não se trata de desejar em seu lugar. Trata-se de descobrir o seu próprio desejo e a sua própria palavra.

O terapeuta é aquele que, através da fraternidade, com todas as dimensões do ser, cuida também desse processo de síntese que está operando em cada um de nós, nos momentos de alegria e nos momentos de crise.
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A sombra é a parte reprimida de nós mesmos. Falar muito de luz atrai muita sombra.

Não há caminho para a luz que não faça a travessia da sombra. Não se trata de procurá-la, não se trata de se comprazer nela, trata-se de atravessá-la. Na natureza fascinante e bela ou na natureza aterradora e destruidora há também a experiência da arte.

O objetivo desse trabalho com a sombra em uma dimensão ou outra do nosso ser é um trabalho de lucidez, é o trabalho do herói que enfrenta seus monstros interiores, que enfrenta os seus medos. Mas isso é feito para que nasça o ser autêntico, o ser centrado, no ser Essencial.
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As novas idéias são primeiro ignoradas, depois ridicularizadas, depois violentamente combatidas e enfim adotadas pelos que sempre as combateram e que passam a dizer: eu sempre falei isso...
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Talvez o ser humano seja a maior descoberta deste século!

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