sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Para que serve a formação?


Se a competência dos professores fosse medida pelo número de cursos frequentados, a qualificação dos professores seria extraordinária. Se a qualidade das escolas pudesse ser medida pelo peso dos certificados de acções de formação frequentadas pelos seus professores, aconteceria uma revolução em cada escola.

Os professores fazem cursos, acumulam certificados, sem que isso corresponda a mudança ou responda aos desafios que encaram na sala de aula. Uma pesquisa recente (1) revela que professores que fizeram muitos cursos não melhoraram o aprendizado dos seus alunos – “os docentes que frequentaram programas de capacitação não conseguiram que seus alunos obtivessem melhor desempenho no Saeb”.  

O estudo revela algo surpreendente: “quando se trata do ensino público e dos cursos de capacitação oferecidos aos professores dessas redes, a constatação é que eles não estão fazendo diferença no desempenho dos alunos, apesar de geralmente serem divulgados como uma das iniciativas para melhorar o ensino”. Esta preocupante realidade brasileira não difere de outras realidades. Em Portugal, após o incremento da formação continuada de professores, decorrente da institucionalização de um sub-sistema de formação e do investimento de milhões de euros, os resultados foram decepcionantes. Na prática, pouco ou nada se alterou na atitude dos professores, pouco ou nada terá mudado nas suas práticas.

O estudo efectuado no Brasil refere que “o professor vai, fica ouvindo sobre várias linhas pedagógicas e no fim não aprende nada que consiga usar”. Estas considerações são como o eco de lamentações que escutei, há muitos anos atrás, em Portugal:

“Fui educada para comer, ouvir e calar e a formação continuada tradicional é um massacre. As pessoas não podem ser pessoas e passam as horas a treinar-se em algo que lhes dizem terem de ser. Sempre gostei da formação, se eu a quiser. Gostaria de saber qual  é o segredo da Escola da Ponte, que oportunidades de formação são dadas aos professores da Ponte,  o que os faz serem diferentes.”

Porque falharam os programas de formação? Talvez porque se tenha insistido na crença da transferibilidade linear de saberes pretensamente adquiridos. Talvez porque se tenha esquecido que o modo como o professor aprende é o modo como o professor ensina. Que o modelo predominante da formação universitária é, por vezes, a negação do que se pretende transmitir e que a universidade é... a matriz. Talvez porque se descurasse a necessidade de criar dispositivos de auto-formação cooperativa, que rompessem com a cultura do isolamento e auto-suficiência que ainda prevalecem nas nossas escolas. Talvez...

Não será difícil caracterizar os programas de formação que serviram intuitos reformadores, mas que as escolas “reformaram”:

  •  os conteúdos e finalidades surgem sob a forma de módulos e etapas a percorrer, em função de modelos a reproduzir;
  •  a planificação é feita por serviços centrais;
  • existe uma relação de poder vertical explícita do formador (sujeito de formação) sobre o professor (objecto de formação);
  • a avaliação é certificativa;
  •  a formação continuada segue a lógica das "pedagogias compensatórias", no sentido em que não há relação entre formação inicial e formação não-inicial, apenas se concebe como necessidade de remediação de lacunas da formação inicial;
  • os professores são consumidores de pesquisa;
  • o objectivo primordial é o de adaptar os professores a "novas" técnicas ou processos.

A quem serviu esta prática de formação? A avaliar pela situação que se vive nas escolas, talvez a ninguém. E não se poderá imputar a responsabilidade à incipiente concepção, à escassez de recursos, à falta de financiamento dos programas ou ao tradicional individualismo dos professores. Se algum êxito estes programas tiveram foi o de reforçar o alheamento e a alienação de grande número de professores, mantendo-os como simples consumidores de formação. As avaliações (quando as houve) segregaram aspectos relativos ao enquadramento dos programas no seu contexto sócio-económico e cultural, num quadro de racionalidade técnico-instrumental.

Poderemos concluir que já tudo foi discutido e prescrito sobre formação? Ou deveremos seguir a máxima de Pascal que nos avisa que, por detrás de cada verdade, é preciso aceitar que existe uma qualquer outra verdade que se lhe opõe? 

Opto pela busca. Porque acredito que a formação acontece quando um professor se decifra através de um diálogo entre o eu que age e o eu que se interroga, quando o professor participa de um efectivo projecto, identifica as suas fragilidades e compreende que é obra imperfeita de imperfeitos professores. Por essa razão, procurei alternativas. Por isso, aconteceu este livro.

[1]Determinantes do Desempenho Escolar do Brasil”, Naércio Menezes Filho, São Paulo, 2007

Extraído do livro “ESCOLA DA PONTE - Formação e transformação” por José Pacheco - Educador


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