terça-feira, 16 de abril de 2013

Despertar

Quando deixou o bosque onde Buda o Perfeito, ficara, e onde Govinda ficara também, Siddharta sentiu que ele próprio deixara igualmente no bosque a sua vida anterior. Enquanto seguia, devagar, o seu caminho, a sua cabeça não pensava noutra coisa. Refletiu profundamente, até essa sensação o avassalar por completo e chegar a um ponto em que reconheceu causas – pois reconhecer causas, parecia-lhe, era pensar, e só através do pensamento as sensações se tornam saber e, em vez de se perderem, tornam-se reais e começam a amadurecer.


Siddharta refletiu profundamente, enquanto seguia o seu caminho. Compreendeu que já não era um jovem e, sim, um homem, compreendeu que algo o deixara, como a pele velha de que uma serpente se despe. Uma coisa o abandonara, uma coisa que o acompanhara durante toda a juventude e fora, por assim dizer, uma parte dele próprio: o desejo de ter professores e ouvir os seus ensinamentos. Abandonara o maior mestre que jamais conhecera até esse, o maior e mais sábio de todos, o mais santo, o Buda. Tivera de deixá-lo; não pudera aceitar os seus ensinamentos.


Vagarosamente, o pensador continuou o seu caminho e perguntou-se: “Que querias tu aprender com ensinamentos e mestres, e que coisa era que, embora te ensinassem muito, não te conseguiram ensinar?” E pensou: “Era o Eu, cujo caráter e natureza eu desejava conhecer. Queria libertar-me do Eu, conquistá-lo, mas não fui capaz, consegui apenas iludi-lo, consegui apenas fugir dele, consegui apenas esconder-me dele. Em verdade, nada neste mundo tem ocupado tanto os meus pensamentos como o Eu, este enigma, o fato de eu viver e ser único, e separado, e diferente, de todos os outros, o fato de ser Siddharta, e de não saber menos acerca de nada no mundo do que acerca de mim próprio, de Siddharta.”


Seguindo vagarosamente o seu caminho, o pensador estacou, de súbito, dominado por esse pensamento, do qual outro emergiu imediatamente: “A razão porque não sei nada a respeito de mim próprio, a razão porque Siddharta me permaneceu estranho e desconhecido, deve-se a uma coisa: tinha medo de mim próprio, fugia de mim próprio. Procurava Brame, procurava Atman, desejava destruir-me, libertar-me de mim, a fim de encontrar o âmago desconhecido de mim mesmo o núcleo de todas as coisas – Atman, Vida, Divindade, Absoluto. Mas, ao proceder assim, perdi-me no caminho.”


Siddharta olhou para cima em seu redor, e no seu rosto alastrou um sorriso, enquanto uma forte sensação de despertar de um longo sonho permeava todo o seu ser. Recomeçou imediatamente a andar depressa, como um homem que sabe o que tem que fazer.


“Sim”, pensou, a respirar profundamente, “nunca mais tentarei fugir de Siddharta. Nunca mais devotarei os meus pensamentos a Atman e ao sofrimento do mundo. Nunca mais me mutilarei e destruirei para encontrar um segredo oculto atrás das ruínas. Nunca mais estudarei yoga-Veda, Atharva-Veda, ou ascetismo, ou qualquer outra doutrina. Aprenderei comigo próprio, serei aluno de mim mesmo; Aprenderei comigo próprio o segredo de Siddharta.”


Olhou de novo em seu redor, como se visse o mundo pela primeira vez. O mundo era belo, estranho e misterioso. Havia azul, amarelo e verde, havia céu e rio, havia florestas e montanhas, tudo belo, tudo misterioso e fascinante, e no meio de tudo estava ele, Siddharta, o que despertara, a caminho de si mesmo. Tudo aquilo, todo aquele amarelo e azul, rio e floresta, passou pela primeira vez pelos olhos de Siddharta. Já não eram a magia de Mara, já não eram o véu de Maya, já não eram as diversidades fortuitas e sem sentido das aparências do mundo desprezadas pelos profundos pensadores brâmanes, que desdenhavam a diversidade e procuravam a unidade. Rio era rio, e se o Único e o Divino em Siddharta viviam secretamente em azul e rio, era apenas por a arte e a intenção divinas quererem que ali fosse amarelo e azul, ali céu e floresta – e aqui Siddharta. O significado e a realidade não estavam ocultos, algures, atrás das coisas; estavam nelas, em todas elas.


“Como fui surdo e estúpido”, pensou, enquanto caminhava apressadamente. “Quando alguém lê alguma coisa que deseja estudar, não desdenha das letras nem da pontuação, não lhes chama ilusão, acaso e invólucros sem mérito; lê-as, estuda-as ama-as, letra por letra. Mas eu, que desejava ler o livro do mundo e o livro da minha própria natureza, tive a presunção de desdenhar das letras e dos sinais de pontuação. Chamei ilusão ao mundo das aparências. Chamei acaso aos meus olhos e à minha língua. Mas agora se acabou; despertei. Acordei deveras e só hoje nasci.”


Mas, enquanto estes pensamentos desfilavam pelo pensamento de Siddharta, ele estacou, de súbito, como se uma serpente se atravessasse no seu caminho.


Outra coisa se lhe tornara, repentinamente, clara: ele, que de fato como alguém que tivesse acordado ou acabado de nascer, tinha de recomeçar completamente a sua vida, do principio. Quando, naquela manhã, deixara o bosque de Jetavana, o bosque do Sábio já desperto, já a caminho de si próprio, era sua intenção, e parecera-lhe a solução natural após os seus anos de ascetismo, regressar a casa do pai. Agora, porém, naquele momento em que estacou como se uma serpente se lhe atravessasse no caminho, acudiu-lhe outro pensamento: “Já não sou o que era, já não sou um asceta, nem um sacerdote nem um brâmane. Que farei, então, em casa com meu pai? Estudar? Oferecer sacrifícios? Meditar? Tudo isso acabou, já, para mim.”


Siddharta continuou imóvel e um frio de gelo envolveu-o momentaneamente. Estremeceu interiormente como um animalzinho, como um pássaro ou uma lebre, ao compreender como estava só. Havia anos que não tinha casa e, no entanto, nunca sentira o que sentia naquele momento. Anteriormente, quando mergulhava em profunda meditação, continuava a ser o filho de seu pai, um brâmane de alta hierarquia, um homem religioso. Agora era apenas Siddharta o desperto; mais nada. Respirou fundo e estremeceu de novo. Não havia ninguém tão só como ele. Não era um nobre que pertencesse a qualquer aristocracia, não era um artesão que pertencesse a qualquer guilda e nela encontrasse refugio, compartilhando a sua vida e a sua língua. Não era um brâmane compartilhando a vida dos Brâmanes, um asceta pertencendo aos Samanas. Ate mesmo o mais isolado eremita das florestas não era o único e sozinho, pertencia a uma classe de pessoas. Govinda tornara-se monge e milhares de monges eram seus irmãos, usavam o mesmo manto, compartilhavam as suas crenças e falavam a sua língua. Mas a que pertencia ele, Siddharta? Que vida compartilharia? Que língua falaria?


Nesse momento em que o mundo à sua volta se desfez, em que se encontrou sozinho com uma estrela no céu, avassalou-o uma sensação de gelado desespero, mas foi mas firmemente ele próprio do que nunca. Foi o ultimo espasmo do seu despertar, as ultimas dores do nascimento. Recomeçou logo a andar, rápida e impacientemente. Já não ia na direção de casa, já não ia para junto do pai, já não olhava para trás.

Extraído de: "Siddharta" por Herman Hesse - Editorial Minerva 2ª Edição - Reedição - Fevereiro 1996

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