Fonte: Dicionário de valores em Educação
Prof. José Pacheco
Prof. José Pacheco
“A voz da beleza fala delicadamente: ela se move dentro das
almas mais iluminadas.”
(Nietzsche)
Se fizermos uma análise de conteúdo dos projetos político-pedagógicos das
nossas escolas, concluiremos que quase todos contêm termos como:
autonomia, cidadania, solidariedade… Porém, nunca vi algum PPP que
contemplasse a beleza no seu texto, como valor a desenvolver na prática. O
fato é surpreendente, porque, ou a educação é um ato estético, ou não é
educação.
Se a beleza está nos olhos de quem vê, de quem sente, ela requer um
exercício de sensibilidade, mas, num currículo que privilegia as áreas ditas
nobres (Matemática, Língua Portuguesa…), as artes são remetidas para
horários escusos, contra-turnos e tempos livres. Se bem que possa haver arte
no ensino da matemática – que, in illo tempore, era disciplina próxima da
música –a clássica aula dificilmente conseguirá que o ser sensível se revele. E,
sem a vivência da beleza, somos impedidos de experienciar o amor e a
liberdade, que, juntos, nos conduzem pelos caminhos da sabedoria.
A par do consumo cultural das famílias, o curricular desprezo pela área artística talvez seja responsável, por exemplo, pelo “gosto” musical dos jovens do nosso
país, um “gosto” que não ultrapassa o nível da indigência. Em lugares públicos,
os nossos ouvidos são impunemente agredidos por crews, sertanojos
universitários e outras aberrações, expelidas por potentes caixas de som (cujo
nível de decibeis faz tremer as viaturas que as transportam), por celulares, por
mp3 e outros veículos de propagação de ruído.
Nos idos de 1970, quando partilhava Vivaldi com os meus alunos, descobri que
só amamos aquilo que conhecemos. Fiquei feliz por lhes ter dado a conhecer
Vivaldi e muitos outros gênios da música. E fiquei triste, quando conheci o
Fábio. O moço queria ser violoncelista, mas decidiu estudar Direito. Disse-me:
Depois, quando eu tiver um emprego, se verá...
Escreveu Murilo Mendes que a educação deveria formar as pessoas para
serem poetas a vida inteira. Pessoas (porque as escolas são as pessoas que
nelas vivem o drama educacional) que, não somente saibam fazer versos, mas
que vivam em poesia, que percorram o curso da existência a poetizar os seus
gestos. Porém, muitas escolas tendem a formar bonsais humanos, criaturas
que ignoram que quem nunca se comoveu com uma suite de Bach para
violoncelo talvez nunca tenha existido.
Deve preocupar-nos o fato de muitos professores se deixarem manipular pela
praga da cultura de massa. Desde o útero, sofremos a degradação da ética e
do sensível. E, para completar a tragédia – que a família inaugura e a escola
amplia – quase toda a mídia parece empenhada numa campanha de
imbecilização das massas, que talvez vise manter o povo culturalmente
alienado, num estado de subdesenvolvimento estético.
Fui fazer uma palestra numa cidade do Interior, mas quase não conseguia
fazer ouvir a minha voz. Lá fora, a elevada potência de uma aparelhagem de
som ampliava a cantoria de uma esganiçada dupla sertaneja. Liguei a TV.
Eram três os canais disponíveis. Em dois deles, passavam novelas. No
terceiro, um programa idiota, que dá pelo nome de Big Brother. Desliguei.
Fiquei a pensar na sorte de muitos dos nossos concidadãos, privados da
fruição do belo. E adormeci a pensar nas escolas… Felizmente, acompanhado
do concerto dos pássaros, num fim de tarde feito da beleza que têm as
pequenas coisas.
(Muito embora a EDITORA não detenha a exclusividade do material elaborado pelo AUTOR, este somente poderá reproduzir a OBRA, objeto do presente instrumento, por qualquer meio ou forma, desde que mencione o copyright de Edições SM Ltda. em toda e qualquer reprodução)
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