O medo, disse Lucrécio, foi o grande criador dos deuses. Medo sobretudo da morte. A vida primeva rodeava-se de mil perigos, raro ocorrendo morte natural; antes que a velhice chegasse, a violência ou a doença levava maior parte das criaturas. Daí não crer o primitivo que a morte fosse natural; atribuía-a a manobras de agentes sobrenaturais. Na mitologia dos nativos da Nova Bretanha a morte veio para os homens dum erro dos deuses. O bom deus Cambinana dissera ao seu tonto irmão Korvouva: "Desce até os homens e diz-lhes que mudem a pele. E diz às serpentes que elas terão que morrer! Korvouva trocou os recados; e deu a morte aos homens. Muitas tribos pensavam que a morte era devida ao enrugamento da pele, e que o homem escaparia dela se pudesse mudar de pele como as serpentes.
Medo da morte, admiração diante da causa das coisas e dos acontecimentos ininteligíveis, esperança de auxílio divino e gratidão pelo bem que acontece, tudo isto cooperou para gerar a fé religiosa. Admiração e mistério ligavam-se em especial ao sexo e aos sonhos, e à misteriosa influência dos corpos celestes sobre a Terra e o homem. Os primitivos maravilhavam-se diante dos fantasmas que viam durante o sono a imagem de parentes e amigos mortos. Enterravam os mortos a fim de que não voltassem à Terra, com eles enterravam os seus pertences e vitualhas, de medo que viessem persegui-los; às vezes deixavam o cadáver na casa e mudavam-se; nalguns lugares o corpo era retirado por um buraco aberto na parede, e passeado rápidamente, por três vezes, em redor da casa, para que o espírito esquecesse a entrada e nunca viesse assombrá-la.
Tais experiências convenceram o homem primitivo de que cada criatura tinha uma alma,ou vida secreta dentro de si, a qual se separava do corpo na cabeça, no sono ou na morte."Não desperteis ninguém abruptamente", diz um dos Upanishads da antiga Índia, "porque pode acontecer que a alma não encontre meio de voltar ao corpo". Não só o homem, mas todas as coisas tinham alma; o mundo externo não era insensível ou morto, sim intensamente vivo; se não fosse assim, pensava a antiga filosofia, a natureza seria incompreensível, no movimento do Sol, no raio, no murmúrio das árvores. O meio pessoal de conceber objetos e eventos precedeu o impessoal e abstrato; a religião veio antes da filosofia. Tal animismo constitui a poesia da religião, e a religião da poesia. Podemos vê-lo no olhar admirado de um cão que contempla um papel levado pelo vento, e talvez suponha que é o espírito do papel que o conduz; e o mesmo sentimento encontramos, sublinhado, na linguagem dos poetas. Para a mentalidade primitiva do poeta de todos os tempos, montanhas, rios, rochas, árvores, estrelas, Sol, Lua, céu, são coisas sacramentalmente sagradas - exterioridades visíveis da invisível alma interior. Para os antigos o céu era o deus Urano; a Lua, Selene; a Terra, Gea; o mar, Poseidon, e, por todas as florestas andava o deus Pã. Para os antigos germânicos a floresta se povoava de gênios, elfos, trols, gigantes, anões e fadas; esses seres silvanos sobrevivem na música de Wagner e nos dramas poéticos de Ibsen. Os mais simples campónios da Irlanda ainda crêem em fadas, e poeta nenhum, ou teatrólogo irlandês, foge disso. Há sabedoria e beleza neste animismo; todas as coisas devem ser tratadas como vivas. Para os espíritos sensíveis, o mais sensível dos escritores contemporâneos diz o seguinte:
A natureza começa a apresentar-se como uma vasta congérie de formas de vida, algumas visíveis, outras invisíveis, mas todas dotadas de espírito e matéria no mistério básico do ser... O mundo está cheio de deuses! de cada planeta e de cada pedra emana uma presença que nos perturba com o senso da multiplicidade dos poderes divinos, fortes e fracos, grandes e pequenos, a moverem-se entre o céu e a Terra em seus secretos propósitos (Powis).
Extraído de História da Civilização - Primeira parte, Tomo 1 por Will Durant

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